DE POTESTATE
Examinando o primeiro provérbio, do capítulo décimo-quarto do Livro de Salomão, temos o seguinte texto:
חַכְמ֣וֹת נָ֖שִׁים בָּנְתָ֣ה בֵיתָ֑הּ וְ֜אִוֶּ֗לֶת בְּיָדֶ֥יהָ תֶהֶרְסֶֽנּוּ:
(Ĥakhmot nashim bantáh beitah, we'iwélet beyadah tehersênnu)
Que, livremente traduzido, fica:
"(Qualquer das) mulheres sábias tem construida a própria casa: uma mulher cheia-de-si destruirá (a sua) com as próprias mãos."
Ou seja: o mesmo princípio aplicado aos homens que se creiam todo-poderosos vale aqui, também: alguém só se torna "empoderado", quando há outorga, transferência, ou licenciamento para tal "poderio".
Quem é "empoderado", nada mais é do que "capacitado", "confiante porquanto confiado": por isso é, que todo autolouvor é autovitupério. Aqui, a presunção de grandeza é o fator que destroi qualquer lar: se ela parte do homem, ele destroi seu lar por dentro, uma vez que ele construa essa sensação na mulher (que passa, agora, a disfarçar sua insegurança por meio do tal "empoderamento").
Enquanto que, se ela parte da mulher, o seu lar já é morto desde o dia em que ele vem ao mundo: na Bíblia, a partir do momento em que Eva come primeiro do fruto do conhecimento do Bem e do Mal, e o dá para Adão, é ela quem se torna o centro do Universo.
Ela, portanto, é quem passa a lidar diretamente com o diabo e, ao contrário do que se lê por aí, Deus diz a Eva, que é ela a que terá de colocar o homem em movimento, enquanto que Adão teria que refrear-lhe os ímpetos (ou, como está no texto, "dominá-la"). Ela manda nele, ele governa ela: equilíbrio completo de forças. Afinal, um só domina o outro quando há compreensão mútua de como cada uma das duas partes funciona. E, assim como há governos bons e governos maus, há governos que se passam por bons, sendo maus, bem como governos aparentemente maus, que se tornam eficazes, porquanto eficientes.
Portanto, não basta apenas se sentir empoderado: todo psicopata se sente assim, e não se arrepende de absolutamente nada do que faça de ruim. Nenhum narcisista se dá ao luxo de rebaixar-se, sequer para pedir perdão, desculpas, ou o que quer que seja.
Arrependimento é uma palavra que jamais se lhes passa pela cabeça. E todos se deixam levar pelo encanto que essa turma traz, ao se passarem por bons avôs, bons pais, etc. Seja por medo de rabo preso, seja por identificação (ainda que momentânea) com eles, seja por ignorância, ou mesmo por camaradagem (a turma do "meu amigo eu defendo, mesmo ele estando errado", que vive de cagar regra).
E sobre quem sofre com tudo isso é que fica a pecha de "exagerado", "dramático", "ingrato", "vagabundo", "pilantra", e por aí vai.
E isso é quando se é pai, quando se é esposo, quando se é (como) filho...
E, passando para o âmbito social, hoje em dia, estamos em uma sociedade completamente pulverizada: todas as fraquezas acabam por ser usadas mutuamente, os tetos-de-vidro se tornam alvo das presunções de autovirtude: e a religião acaba sendo usada pra mascarar o faro de certas pessoas.
O que faz, no fim, com que muito mais facilmente se imponha um regulamento único, pra que todas as dívidas passadas, pecados, etc. sejam apagáveis a quem esteja disposto a condescender com esse poder moderador:
"Aos camaradas, tudo. Aos inimigos a Lei".
É assim que tem funcionado. Infelizmente.
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